quinta-feira, dezembro 07, 2006

5. ACHO QUE VOU ESCREVER UM TEXTO A COMEÇAR ASSIM...

.........
Agora a sério: nunca mais vens tomar café comigo?
Deixas-me assim, isolado, numa mesa de café?
Ao sabor das recordações?
(Acho que vou fazer um texto a começar assim!).
Beijos
(alegro, ma non tropo!)
..........

É Dezembro, chove, cargas de água diluvianas, vejo-as cair através do vidro da montra do café. Hoje sentei-me aqui, junto à porta, a ver a chuva cair. O café desaparece atrás de mim, numa névoa sem rosto. Imagino um quarto de hotel, imagino uma cigarrilha forte, das que sabem bem e arranham a garganta, imagino um café bem preto e um copo de água gelada, imagino um livro, um bom livro, denso e forte, daqueles que colam as páginas aos nossos dedos, e não os largam, e vamos cavalgando por sobre as letras com a volúpia da descoberta, imagino a mulher que amo, um rosto num corpo nu a emergir de um cobertor grosso mas macio, que a envolve quase por completo, deixando apenas a cabeça, e os cabelos negros, longos, fortes, deitados sobre o meu ombro. Leio para ela palavras que resumem emoções, ela espreita as páginas do livro, lidas de esguelha, coloco o livro de lado, olhamos ambos a chuva a escorrer pelo vidro, depois de o bater sem piedade, com gotas vigorosas.

foto roubada à IMF

- Gosto de um quarto de hotel, uma tarde de amor, a chuva na janela... Gosto desta sensação de calor, de intimidade resguardada, de esconderijo secreto, de “ninho de amor”, como lhe chamavam as românticas do século XIX. Gosto de me aconchegar nos teus braços, gosto deste ruído martelado, cadenciado, monótono, que adormece, gosto de despertar ao teu colo, embrulhada neste cobertor roubado à cama que acabamos de desfazer, gosto dessa cama desfeita, e gosto de te ouvir ler para mim… Continua…
Volto a olhar o livro. É David, perfeito, absoluto, sem mácula. O David que eu recordo das aulas da universidade, dos corredores, das revoadas de alunas à sua volta, presas da sua voz, do seu olhar, do cachimbo que nunca esquecia, da poesia envolvente que aquecia os anfiteatros.
Passo a mão por dentro do cobertor, por baixo do braço dela, a mão descobre-lhe o seio, acaricia-o, pousa sobre ele, sente-o e satisfaz-se com isso.
A minha voz é rouca, o café amacia-a, a cigarrilha enrouquece-a, a mulher a meu lado tira-me a respiração, não, nada disso, deixa-me respirar profundamente, abre-me o peito, permite-me oxigenar os pulmões, dá-me mais vida, neste boca a boca de amorosos escondidos do mundo num quarto de um quarto andar de hotel, 410, “dá para a frente”, sossegado, discreto, único.
A minha voz é rouca, e leio-o para ela ouvir. Chama-se “Ternura”.
- Ouve, é para ti:

“Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...
.
Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
.
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
.
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!” (*)

- Muito bonito. Re-inventámo-lo hoje.
- Não. Nós não o re-inventámos. O David antecipou-se. Escreveu, imaginou, inventou o que hoje aqui iria acontecer. Repara na “roupa no chão: que tempestade!” Olha os “vultos perdidos na cidade em que uma tempestade sobreveio...” Olha a tempestade que rebenta lá fora, a tempestade que se aclama cá dentro, o vidro da janela a separá-las, ou se calhar a uni-las, ligar uma à outra, a fúria dos elementos em desnorte…
Regresso ao café, o vidro da monstra, o cheiro forte da segunda bica ainda fumegante, o caderno de folhas brancas, por cima dos jornais, a esferográfica entre os dedos, as palavras que se vão soltando, uma a uma, da memória do quarto de hotel para a planície branca do papel. Uma a uma, as frases, faltas-me tu no meu ombro, o cobertor à volta da tua nudez, mas a ternura permanece, apesar da tua ausência.

Viajante inseguro
Na noite

Percorro as paisagens do teu corpo
Imagino colinas e vales profundos
Grutas perdidas e achadas

Ouvem-se gritos de desespero
E gemidos de desejo - mortos na garganta

Viajo na noite do teu corpo
E perco-me, perdendo-te
Nesse labirinto de esperma e suor.

Nunca serei David, penso. Mas nem só de génios vive a Humanidade. São recordações sob a forma de palavras reunidas na emoção do momento. São recordações do passado enquanto se esperam as do futuro. Por debaixo do caderno de folhas brancas, vários jornais do dia. Um desportivo, “da casa”: “Sporting derrotado pelos russos, saltas das competições europeias.” Merda!, é sempre a mesma coisa! Nos momentos essenciais, o colapso.
- Zé Manel, quanto devo? O jornal está aqui… Só desgraças...
Lá fora a chuva continua a cair. Tu não apareceste.
_____________________
(*) David Mourão Ferreira, “Ternura”

9 comentários:

Mendes Ferreira disse...

um texto cheio de metáforas...

(isto não se faz....o David???? é meso para me obrigares a escrever não é oh ilustre cineasta vadio????)
:)))))....

pronto. pronto.

vou tentar aparecer mais cedo... e para a semana vadiamos....:))))

até logo.


e parabéns...

está "podre" de .....de.....de....

Bandida disse...

Deslumbrante. poderoso.

intensamente melódico. o quarto de hotel. tudo a fazer do corpo a esteira do desejo. a voz. a grave cadência do poema. grave, a voz. aquecida.

gostei MUITO!!!!!!!!!!

TANTO!!! TANTO!!!!!!! TANTO!!!!!!

Há esperas que valem...

o desejo.



beijo.
____________________

Lauro António disse...

Isabel: Cá fico á espera. Com ansiadade.
Bandida: que hei-de dizer? Queres tomar café? lol m beijo de obrigado.

Bandida disse...

... e eu que não gosto de café...

pode ser chá, pois então...

um chá vá.vá diado...


:))

_________________________

Y. disse...

ah _____________o Sporting....nem me fales....

na volta a culpa foi tua...

deixaste de fumar....:))))

.

até logo.

Anónimo disse...

Bom texto, intenso, replerto de recordações. Vou continuar a ler. Espero por mais. Maria

isabel victor disse...

Que delícia ... esta vadiagem vestida de palavras mornas e líquidas derramadas "nas folhas brancas de um caderno" num dia (intenso) de chuva ...

Vou passando ...

Ida disse...

as palavras que se vão soltando, uma a uma, da memória do quarto de hotel para a planície branca do papel. Não sei se gênio, mas, com certeza, de uma sensibilidade e destreza com as palavras deliciosa e rara.

Anónimo disse...

ler todo o blog, muito bom